Comunicações de Além-Túmulo — Allan Kardec

O médium Sr. D., buscando ajuda dos bons Espíritos, submeteu o seguinte apelo ao Espírito de Allan Kardec:

Evocação: (Ao mestre Allan Kardec) Peço suas orientações, mestre, para o nosso grupo mediúnico.

Resposta (com grifos nossos): Para todas as reuniões vos orientamos o preparo antecedente, com o tema e perguntas, prontos para os vossos estudos. Aos médiuns, a busca pelo aprimoramento de suas faculdades. Quereis ser bons médiuns? Pois o estudo, a prática regular da mediunidade e a busca ininterrupta pela melhora moral é a boa via. Não precisais praticar, para isso, exercícios demasiadamente, sem o devido descanso e sem cautela, para não atrair os mistificadores. Mas a dedicação de um quarto de hora, por exemplo. A sinceridade de intenção também vos auxiliará. Perguntai-vos a razão pela qual estão reunidos, consultai a vossa consciência, pois as razões frívolas não atraem senão os levianos e zombadores. A fé é o instrumento da razão, não somente da emoção. A tornarão inabalável, através dos estudos e da meditação. Médiuns, esforçai-vos para ser bons médiuns; colaboradores que não têm sua faculdade medianímica ainda bem desenvolvida, esforçai-vos para terem bom coração e fé. Q., te digo que és médium inspirada e psicófona consciente, sem o saber. Z., médium inspirado e intuitivo. Todos médiuns, esforçai-vos para ser bons médiuns.

Observações:

A comunicação foi obtida pelo médium D., psicógrafo, em ambiente alheio à reunião do nosso grupo. Antes dessa pergunta, concentrou-se em preces e solicitou primeiramente a opinião do Espírito de Santo Agostinho, presidente de outro grupo mediúnico com o qual ele interage.

Como todas as comunicações obtidas dentro e fora de nosso grupo, submetêmo-la ao mais rigoroso exame crítico, dentro de nossas possibilidades. Fazemos isso através de um documento virtual, compartilhado entre todos nós, onde fazemos observações e questionamentos que, conforme necessidade, poderão ser abordados em nova evocação (ao mesmo Espírito, ou a outro que julgarmos conveniente tentar chamar), como poderão ver em um trecho de uma outra comunicação, a ser abordada em breve:

Sobre a comunicação em resposta à evocação do Espírito de Allan Kardec, nada tivemos a criticá-la. Nos pareceu eloquente, direta, simples e alertadora, sem rodeios ou subterfúgios — todas elas características de Allan Kardec, que se comunicava para se fazer entendido por todos. Se foi ele mesmo quem se comunicou ou se a comunicação veio por meio de outro Espírito, por ele inspirado, realmente não importa, posto que a mensagem chegou e atendeu ao seu propósito.

Sim, amigos, inclusive o Espírito de Allan Kardec pode ser evocado e se comunicar, mas a questão sempre será o intuito e a seriedade de quem chama. Como sabemos, chamar por curiosidade ou leviandade vai terminar despertando o interesse de Espíritos levianos ou impostores, mistificadores.

Escolhemos essa breve mensagem para abrir nossa seção de artigos intitulada “Comunicações de Além-Túmulo”, onde buscaremos seguir os passos de Allan Kardec, tanto na análise, quanto na apresentação das comunicações, espontâneas ou não, obtidas em nosso meio ou em outros grupos. Desejamos nos fazer mais um exemplo, mais uma pequena luz, ainda meio pálida, a reluzir nessa noite escura na qual mergulhou o Movimento Espírita, da qual desejamos que todos possam em breve acordar — e esse “breve” depende apenas da vontade de cada um. Reúnam-se, amigos. Estudem, perseverem. Mergulhem nas páginas de Kardec para delas saírem conscientes das necessidades dessa ciência, inspirados, por ele, a darem seus próprios passos. Noite adentro avançarão e, reunidos, farão vossas partes em iluminar esse caminho. As reuniões particulares, assim realizadas, serão sempre de melhor qualidade do que aquelas realizadas em ambientes heterogêneos e, sobretudo, sem estudos.

Perguntai-vos a razão pela qual estão reunidos, consultai a vossa consciência, pois as razões frívolas não atraem senão os levianos e zombadores.”




Obstáculos dos Médiuns

A mediunidade é uma faculdade que permite a interação entre o mundo material e o mundo espiritual. Allan Kardec, ao longo de seus estudos, observou que a mediunidade se expressa de formas diversas e com efeitos distintos, o que nos leva a entender que não existe uma única maneira de estabelecer comunicação com os espíritos. Como ele mesmo afirma, “a mediunidade é uma faculdade multiforme”, o que implica na variedade de manifestações e experiências que ela pode gerar.

Colaboração de Ceres Marcon

“A mediunidade é uma faculdade multiforme; apresenta uma infinidade de nuances em seus meios e em seus efeitos. Quem quer que seja apto a receber ou transmitir as comunicações dos Espíritos é, por isso mesmo, um médium, seja qual for o meio empregado ou o grau de desenvolvimento da faculdade – desde a simples influência oculta até a produção dos mais insólitos fenômenos.”

Allan Kardec, Revista Espírita fevereiro de 1859

Dentro das inúmeras manifestações mediúnicas, uma das mais conhecidas e utilizadas é a psicografia. Nesse tipo de mediunidade, o médium atua como um canal para a comunicação escrita com o plano espiritual, sendo uma das formas mais comuns de manifestação no campo do Espiritismo. Ao abordarmos a psicografia, podemos observar que os médiuns podem ser classificados de acordo com o grau de controle sobre o processo, e essas classificações influenciam diretamente nos obstáculos que eles enfrentam ao longo do desenvolvimento dessa faculdade.

Existem três tipos principais de médiuns psicógrafos:

  • Médiuns intuitivos: São aqueles que recebem a inspiração dos espíritos, mas escrevem de forma consciente, com algum controle sobre o que está sendo dito. A comunicação é mais indireta, com o médium recebendo intuições ou orientações, mas ainda mantendo o controle sobre a escrita.
  • Médiuns mecânicos: Esses médiuns tornam-se canais automáticos para a comunicação dos espíritos. Durante o processo de psicografia, eles não têm controle consciente sobre o que está sendo escrito, o que caracteriza uma manifestação de natureza mais espontânea e intensa.
  • Médiuns semimecânicos: Representam um meio-termo entre os tipos anteriores. Embora haja uma certa influência do espírito sobre a escrita, o médium ainda mantém algum grau de controle e consciência sobre o processo.

No entanto, como Kardec nos alerta, mesmo sendo uma faculdade natural, a mediunidade não é isenta de dificuldades. Ele nos diz:

“Embora não seja a faculdade um privilégio exclusivo, é certo que encontra refratários, pelo menos no sentido que se lhe dá. Também é certo que não deixa de apresentar escolhos aos que a possuem, pode ser alterada e até perder-se e, muitas vezes ser uma fonte de graves desilusões.”

Allan Kardec, Revista Espírita fevereiro de 1859

Essas palavras de Kardec nos lembram que a mediunidade, apesar de sua natureza acessível a muitas pessoas, não é algo simples. Ela pode encontrar resistência, tanto interna quanto externa, e o médium pode enfrentar obstáculos de diversas ordens — desde a dificuldade em manter o controle sobre as comunicações até o risco de ser influenciado por entidades enganadoras ou mal-intencionadas.

Em sua análise, Kardec nos alerta para a complexidade das causas que envolvem a mediunidade e como, muitas vezes, ela pode se manifestar em indivíduos cujas características morais não são necessariamente exemplares. Ele afirma:

“O dom da mediunidade depende de causas ainda imperfeitamente conhecidas e nas quais parece que o físico tem uma grande parte. À primeira vista pareceria que um dom tão precioso não devesse ser partilhado senão por almas de escol. Ora, a experiência prova o contrário, pois encontramos mediunidade potente em criaturas cuja moral deixa muito a desejar, enquanto outras, estimáveis sob todos os aspectos não a possuem”.

Allan Kardec, Revista Espírita fevereiro de 1859

Percebemos, pelo trecho acima, que, ao contrário do que se poderia supor, essa faculdade mediunica não é um privilégio exclusivo de pessoas de grande virtude moral. A mediunidade não depende unicamente da pureza ou do caráter moral do indivíduo, mas envolve uma combinação de fatores, incluindo aspectos físicos e espirituais ainda não totalmente compreendidos. Essa complexidade pode resultar, inclusive, em manifestações poderosas em indivíduos cujas condições morais não são as ideais, enquanto outros, que poderiam ser considerados mais equilibrados, não a possuem.

Além disso, Kardec ainda nos alerta:

“(…) a boa qualidade do médium não está apenas na facilidade das comunicações, mas unicamente na sua aptidão para só receber as boas. Ora, é nisto que as suas condições morais são onipotentes; e é nisso também que ele encontra os maiores escolhos.” 

Allan Kardec, Revista Espírita fevereiro de 1859

Essa afirmação é fundamental para entender que, para um médium, a qualidade das comunicações espirituais está relacionada à quantidade ou à facilidade que ele recebe mensagens, além da sua capacidade de discernir e filtrar as influências espirituais. O médium precisa estar preparado para rejeitar as influências dos espíritos imperfeitos e aceitar apenas as mensagens provenientes de espíritos elevados e confiáveis.

No entanto, Kardec enfatiza as condições morais do médium são de suma importância. A moralidade do médium não apenas influencia o tipo de comunicação que ele é capaz de receber, mas também atua como um verdadeiro “filtro” para impedir que ele se deixe enganar ou influenciar por espíritos inferior ou enganador. Por isso, os maiores obstáculos para o médium não são apenas as dificuldades técnicas ou físicas, mas as questões morais, que exigem constante vigilância e aprimoramento.

Nesse sentido, os médiuns precisam estar em constante processo de autoconhecimento e reforma íntima. A mediunidade é, por sua própria natureza, uma oportunidade de crescimento, mas também exige grande responsabilidade. O médium não pode ser um simples canal passivo, mas deve buscar constantemente a elevação moral, a ética e a espiritualidade, assim suas faculdades mediúnicas serão bem direcionadas e trarão benefícios para si mesmo e para os outros.

Portanto, os obstáculos morais que os médiuns enfrentam muitas vezes estão ligados a uma tendência de se deixar levar pelo ego, pela vaidade ou pela ansiedade de “mostrar” suas capacidades. A humildade, a disciplina e o desprendimento são qualidades essenciais para garantir que o médium não se desvie do caminho do bem e da verdade, minimizando, assim, os riscos de desilusões ou de comunicações prejudiciais.