Podemos, porém, acrescentar o pensamento de Kardec, em O Livro dos Médiuns:
Há, por fim, os espíritas exaltados. A espécie humana seria perfeita, se preferisse sempre o lado bom das coisas. O exagero é prejudicial em tudo. No Espiritismo ele produz uma confiança cega e frequentemente pueril nas manifestações do mundo invisível, fazendo aceitar muito facilmente e sem controle aquilo que a reflexão e o exame demonstrariam ser absurdo ou impossível, pois o entusiasmo não esclarece, ofusca. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo. São os menos capazes de convencer, porque se desconfia com razão do seu julgamento. São enganados facilmente por Espíritos mistificadores ou por pessoas que procuram explorar a sua credulidade. Se apenas eles tivessem de sofrer as consequências o mal seria menor, mas o pior é que oferecem, embora sem querer, motivos aos incrédulos que mais procuram zombar do que se convencer e não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Isso não é justo nem racional, sem dúvida, mas os adversários do Espiritismo, como se sabe, só reconhecem como boa a sua razão e pouco se importam de conhecer a fundo aquilo de que falam.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, Lake, 23a Edição. Grifos nossos.
É evidente seu posicionamento: os descuidados que, com entusiasmo (e vaidade) acreditam em tudo cegamente, promovem mais mal do que bem à Doutrina.
Exageros, dizem alguns
É da opinião de alguns, que temos exagerado. Segundo eles, devemos “respeitar” a fé de cada um, limitando-nos a realizar o nosso trabalho. Em primeiro lugar, precisamos demonstrar que não existe desrespeito à fé de ninguém. Cada um tem o livre-arbítrio e o direito de acreditar no que quiser, racionalmente ou não. Mas, aqui, tratamos da ciência espírita, e aqui nasce o maior problema da ideia dessas pessoas: o não conhecimento dessa ciência. Basta ler a Revista Espírita e as demais obras de Kardec e verá não apenas ele, mas também os bons Espíritos, frequentemente destacando a necessidade de se expor os erros e, sobretudo, os charlatães e os inimigos da Doutrina Espírita que, vestindo suas ideias sob a roupagem do Espiritismo, voluntariamente ou não promovem o erro que alimenta o descrédito geral no Espiritismo, tal como se fosse mais uma religião nascida das ideias de alguém. Já demonstramos suficientemente o porquê o Espiritismo é uma ciência, e não uma religião.
O Espiritismo chegou distorcido ao Brasil
O fato é que o Espiritismo já se instalou no Brasil adulterado pelo Movimento Espírita iniciante ((fatos fartamente apresentados em Ponto Final, de Wilson Garcia)) e, na FEB (Federação Espírita Brasileira), autodenominada “casa mater” do Espiritismo brasileiro, longe de encontrar terreno para sua restauração, foi substituído pela doutrina de Roustaing, totalmente fundamentada nos velhos dogmas religiosos. Essa instituição, que acabou ditando os rumos do Espiritismo brasileiro por muito tempo, nunca se dedicou a recuperar a ciência espírita e o método necessário para a continuidade da Doutrina, sendo que as evocações particulares (e mesmo nos centros espíritas), ferramenta imprescindível para o estudo científico, foram abandonadas. Sem o método de Kardec, e pelo interesse na impressão e na venda de obras mediúnicas, qualquer ideia vinda de qualquer Espírito passou a ser veiculada e, assim, formou lentamente a crença geral do Movimento Espírita, hoje completamente perdido em ideias que, na verdade, são fundamentalmente antidoutrinárias.
Precisamos reconhecer, é claro, que parte dessas ideias fundamentou-se antes mesmo da vinda do Espiritismo ao Brasil, com a adulteração das obras O Céu e o Inferno (principalmente) e a A Gênese, após a morte de Kardec. Infelizmente, a FEB é a primeira a defender a ideia de que essas obras não tenham sido adulteradas, fato que, principalmente com relação à O Céu e o Inferno, é suficientemente evidenciado e irrefutável.
Falar em adulteração é criar descrença?
Aqui, enfim, chegamos a outra crítica de certas pessoas: “dizer que houve adulteração seria jogar lama em Kardec, suscitar descrença no Espiritismo”. “Aliás”, dizem elas, “que Doutrina é essa que os Espíritos permitem tal coisa, sem aviso?”. É um pensamento completamente ilógico.
Começamos lembrando que as palavras do próprio Cristo foram adulteradas e distorcidas em favor dos dogmas religiosos, e esse fato foi justamente o que levou à descrença de incontável número de pessoas no cristianismo. Voltaire foi um dos mais evidentes expoentes dessa descrença, que ainda hoje prevalece. Perguntamos: seria “lançar lama” em Jesus destacar as adulterações? Seria “suscitar descrença” no cristianismo, destacar as distorções, ao mesmo tempo em que se demonstra as ideias originais? Evidente que não. Se o problema aconteceu, precisamos encará-lo de frente (uma atitude científica e verdadeiramente kardeciana), e não varrê-lo para baixo do tapete, enquanto perduram seus efeitos avassaladores.
À ideia de que “os Espíritos não teriam permitido as adulterações”, opomos a forte recomendação de estudo da Doutrina, o que evidentemente não foi realizado por essas pessoas. Os Espíritos alertaram várias vezes sobre as tramas dos inimigos da Doutrina, como demonstramos em Profecia do Espírito da Verdade. Baseado nos alertas e nas evidências, Kardec também previa o futuro do Espiritismo, conforme destacou na Revista Espírita de dezembro de 1863, no artigo “Período de Lutas”:
A luta determinará uma nova fase do Espiritismo e levará ao quarto período, que será o período religioso. Depois virá o quinto, o período intermediário, consequência natural do precedente e que, mais tarde, receberá sua denominação característica. O sexto e último período será o da renovação social, que abrirá a era do século vinte. Nessa época, todos os obstáculos à nova ordem de coisas desejadas por Deus para a transformação da Terra terão desaparecido. A geração que surge, imbuída das ideias novas, estará em toda a sua força e preparará o caminho da que deve inaugurar a vitória definitiva da união, da paz e da fraternidade entre os homens, confundidos numa mesma crença, pela prática da lei evangélica.
KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1863.
Infelizmente, a previsão do sexto período está atrasada em mais de um século, por diversos fatos imprevisíveis àquela época, quais o abandono do Espiritualismo Racional e da Ciência Espírita, além da adulteração das obras citadas. Depois, as guerras, o esquecimento da Doutrina na França e na Europa e sua instalação no Brasil, completamente distorcido.
Os Espíritos não impedem o livre-arbítrio humano
Lembramos, para terminar, que o cerne da Doutrina Espírita, sempre demonstrado pelos Espíritos, é o livre-arbítrio, ao qual os Espíritos não podem se interpor. Podem aconselhar, mas não podem tolher a vontade humana. Assim fizeram: aconselharam largamente sobre a necessidade de cuidado que, infelizmente, faltou àqueles que deveriam cuidar do legado do mestre. Parece que o Movimento Espírita francês ficou muito confortável com o direcionamento de Kardec e, quando isso deveria mudar, a partir de meados de 1869 (conforme exposto na Revista Espírita de dezembro de 1868, “Constituição transitória do Espiritismo”) Kardec morreu, e todos ficaram sem rumo. Assumindo Leymarie a direção da Sociedade Espírita, desvirtuou o propósito da Revista Espírita, admitindo a doutrina roustainguista a troco de dinheiro, e o resto o leitor pode conhecer através da leitura das obras O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato, Nem Céu, Nem Inferno, de Paulo Henrique de Figueiredo e Ponto Final, de Wilson Garcia.
O bem em meio aos enganos
Muitos dizem: “o Movimento Espirita, em meio a muitos enganos, ainda assim produz um bem. Não é de todo errado”. Não poderíamos discordar disso. Não dizemos que há erro ou engano em tudo e que nenhum bem se produz. Um romance mediúnico, por mais que seja repleto de ideias erradas, pode ser a porta de entrada para o indivíduo questionador ir atrás de mais informações, terminando por conhecer as obras de Kardec, enfim. Mas, perguntamos: não seria melhor que o Espiritismo fosse apresentado como ele é, simples e racional, sem os absurdos que produzem tantos contratempos e que muito frequentemente conduzem à descrença? Não podemos deixar de destacar que, quando se abre espaço para um engano, dentro de uma ciência, e esse engano não é remediado pela teoria e pelos fatos doutrinários, ele dá margem a muitos outros. É o que tem acontecido.
Restauração
É chegada a hora de restaurar o Espiritismo, o que já começou no Brasil e se espalhará pelo mundo. O primeiro passo é aprender o Espiritismo como ele verdadeiramente é, afastando-se dos erros. Aqueles que, ditos “espíritas”, não desejarem fazer assim, integrarão uma nova religião, se o quiserem, tão dogmática quanto as demais. Deixemos que o tempo se encarregue deles, mas nem por isso deixemos de fazer a nossa parte, apresentando os erros, frente à Doutrina Espírita, sem personalismo. Depois, virá o tempo da restauração do método de Kardec. Esses dois passos darão a possibilidade do sexto período previsto por Kardec: o da renovação social.
Faça parte dessa jornada, que é coletiva e somente se dará pela colaboração de muitos.
A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec
São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal – assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni Privato, Júlio Nogueira, Lucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, a Federação Espírita Brasileira, tendo muito a recapitular ao tomar essa atitude (já que os textos original de O Céu e o Inferno e A Gênese contraditam uma infinidade de erros que povoam a generalidade das publicações por ela editadas e impressas) ainda reluta contra esses fatos, baseando-se em argumentações de leigos em matéria de direito autoral.
Além do fato jurídico e do necessário respeito à lei, pelo estudo, acabamos de identificar mais uma evidência, talvez a mais determinante de todas, da adulteração de O Céu e o Inferno, obra de Allan Kardec, justamente na parte que exprimia a filosofia doutrinária em sua mais clara e pura face.
Em O Livro dos Espíritos, Kardec trata da questão dos Espíritos que escolheram sempre o caminho do bem (tratamos disso também no artigo “Reforma Íntima e Espiritismo“:
Existem Espíritos que sempre escolheram o caminho do bem
121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?
“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”
133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?
“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”
a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?
“Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”
O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.
Confirmados pelos Espíritos, existem aqueles que sempre escolheram o caminho do bem, o que não os livra da necessidade de encarnar, para seu desenvolvimento. Assim, não têm o que expiar, dado que a expiação é a escolha consciente de provas e oportunidades que lhes ajudem a desapegar de imperfeições conscientemente adquiridas (lembrando que errar, meramente, não é adquirir imperfeições, desde que o erro seja superado pelo aprendizado. O que gera imperfeições é a repetição consciente do erro).
Além disso, é mais que lógico que aquele que tenha superado, através da expiação, uma imperfeição adquirida, não tem mais o que expiar, exceto caso desenvolva novas imperfeições. Ainda assim, ele pode necessitar nascer em um planeta como a Terra, simplesmente porque suas necessidades atuais demandam ou porque escolha encarnar em missão. O próprio Jesus Cristo é o exemplo máximo desse último caso e, mesmo sendo um Espírito puro, ainda assim enfrentou as vicissitudes da matéria, sem ter nada o que expiar. Vejam aonde leva a admissão dessas falsas ideias: ao dogma de Espíritos criados à parte e que nunca estiveram, em realidade, entre nós (um dogma sustentado por Roustaing)!
Forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno
E aqui chegamos à mais forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno, que, na edição lançada após a morte de Kardec, introduziu dois itens no capítulo VIII (que se tornou capítulo VII):
9.º — Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deve ser paga; se não o for numa existência, sê-lo-á na seguinte ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias umas das outras. Aquele que a quita na existência presente não terá de pagar uma segunda vez.
10.º — O Espírito sofre a pena de suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no mundo corporal. Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, seja na existência presente, seja nas precedentes.
O Céu e o Inferno, quarta edição. FEB. Grifos meus.
Esses dois itens, repito, não existiam na terceira edição da obra, lançada e impressa por Kardec em vida. Admitir que Kardec tenha incluído esses itens nessa edição, em especial o item 10, seria admitir que Kardec entrou em contradição com tudo o que havia desenvolvido até então.
Para dar suporte a essa falsa ideia, os seguintes parágrafos foram removidos na adulteração, no capítulo IX (antigo capítulo X):
Nos primeiros estágios de sua existência, os espíritos estão sujeitos à encarnação material, que é necessária ao seu desenvolvimento, até que tenham chegado a um certo grau. O número das encarnações é indeterminado, e subordina-se à rapidez do progresso, que ocorre na razão direta do trabalho e da boa vontade do espírito, que age sempre em função de seu livre-arbítrio. Aqueles que, por sua incúria, negligência, obstinação ou má vontade permanecem mais tempo nas classes inferiores, sofrem disso as consequências, e o hábito do mal dificulta-lhes a saída desse estado. Um dia, porém, cansam-se dessa existência penosa e dos sofrimentos daí decorrentes. É então que, ao comparar sua situação à dos bons espíritos, compreendem que seu interesse está no bem, procurando então melhorar-se, mas o fazem por vontade pró- pria, sem que a isso sejam forçados. Estão submetidos à lei do progresso por conta de sua aptidão a progredir, mas não o fazem contra a própria vontade. Fornece-lhes Deus incessantemente os meios de progredir, mas são livres para se aproveitarem destes ou não. Se o progresso fosse obrigatório, nenhum mérito os espíritos teriam, e Deus quer que tenham todos o mérito de suas obras, não privilegiando ninguém com o primeiro lugar, posto franqueado a todos, mas que o alcançam somente através dos próprios esforços. Os anjos mais elevados conquistaram sua posição percorrendo, como os demais, a rota comum. Todos, do topo à base, pertenceram ou pertencem ainda à humanidade.
Os homens são, assim, espíritos encarnados mais ou menos adiantados, e os espíritos são as almas dos homens que deixaram seu invólucro material. A vida espiritual é a vida normal do espírito. O corpo não é senão uma vestimenta temporária, apropriada às funções que devem exercer na Terra, tal como o guerreiro veste a armadura e a cota de malha para o momento do combate, delas despindo-se após a batalha, para eventualmente vesti-las de novo quando chegada a hora de uma nova luta. A vida corporal é o combate que os espíritos devem enfrentar para avançar, para o que se revestem dessa armadura que é para eles ao mesmo tempo um instrumento de ação, mas também um embaraço.
Ao encarnarem, os espíritos trazem suas qualidades inerentes. Os espíritos imperfeitos constituem, portanto, os homens imperfeitos; aqueles mais adiantados, bons, inteligentes, instruídos, são os homens instintivamente bons, inteligentes e aptos a adquirir com facilidade novos conhecimentos. Da mesma forma, os homens, ao morrer, fornecem ao mundo espiritual espíritos bons ou maus, adiantados ou atrasados. O mundo corporal e o mundo espiritual suprem-se assim constantemente um ao outro.
Entre os maus espíritos há os que têm toda a perversidade dos demônios, aos quais pode-se aplicar perfeitamente a imagem que se faz desses últimos. Quando encarnados, constituem os homens perversos e astuciosos que se comprazem no mal, parecendo criados para a desgraça de todos os que são atraídos para sua intimidade, e dos quais pode-se dizer – sem que isso constitua ofensa – que são demônios encarnados.
Tendo alcançado um certo grau de purificação, os espíritos recebem missões compatíveis com seu adiantamento, desempenhando dessa forma todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes ordens. Como Deus criou desde sempre, também desde sempre houve espíritos suficientes para atender a todas as necessidades do governo do Universo. Uma só espécie de seres inteligentes, submetidos à lei do progresso, é, portanto, suficiente para tudo. Essa unidade na criação, juntamente à ideia de que todos têm uma mesma origem comum, o mesmo caminho para percorrer, e que se elevam todos por seu mérito próprio, corresponde muito melhor à justiça de Deus do que à criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas por dons naturais, equivalentes a privilégios.
O Céu e o Inferno – Editora FEAL
Notem, também, o seguinte trecho de O Livro dos Espíritos (grifos meus):
Sendo as vicissitudes da vida corporal expiação das faltas do passado e, ao mesmo tempo, provas com vistas ao futuro , seguir-se-á que da natureza de tais vicissitudes se possa inferir de que gênero foi a existência anterior ?
“ Muito amiúde é isso possível , pois que cada um é punido naquilo por onde pecou. Entretanto, não há que tirar daí uma regra absoluta. As tendências instintivas constituem indício mais seguro, visto que as provas por que passa o Espírito são determinadas tanto pelo que respeita ao passado, quanto pelo que toca ao futuro .”
Isto aqui é muito importante. Kardec, em suas obras, vem sempre numa construção crescente, várias vezes repetindo aquilo que já era compreendido como fato da ciência espírita. Quando ele houvesse de contrariar um ponto, por uma correção de entendimento, ele era muito claro sobre isso. Eis que, “do nada”, Kardec teria contrariado a Doutrina para dizer o seguinte, fazendo regra:
“Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes suportadas na vida corpórea , pode-se julgar da natureza das faltas cometidas numa existência precedente, e das imperfeições que lhe são a causa.” (Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 4a edição, adulterada).
Percebe que isso é incongruente com o entendimento de Kardec sobre o Espiritismo e com sua maneira de se portar? O mesmo ele teria feito no parágrafo anterior a esse, o que é impossível, já que, depois, ele voltaria a contrariar essas opiniões erradas, n’A Gênese. Isso é capital, pois essa ideia está diretamente ligada à influência roustainguista na adulteração dessa obra, no capítulo que é, basicamente, o cerne, a base da teoria moral espírita.
Mais evidências da ideia original
Apresento, a seguir, mais alguns trechos da obra de Kardec que evidenciam o verdadeiro entendimento sobre o assunto (a encarnação não é resultado exclusivo da expiação):
“Segundo um sistema que tem algo de especioso à primeira vista, os Espíritos não teriam sido criados para se encarnarem e a encarnação não seria senão o resultado de sua falta. Tal sistema cai pela mera consideração de que se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens na Terra, nem em outros mundos. Ora, como a presença do homem é necessária para o melhoramento material dos mundos; como ele concorre por sua inteligência e sua atividade para a obra geral, ele é uma das engrenagens essenciais da Criação. Deus não podia subordinar a realização desta parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que contasse para tanto com um número sempre suficiente de culpados para fornecer operários aos mundos criados e por criar. O bom-senso repele tal ideia.”
KARDEC. Revista espírita — 1863 > junho > Do príncipio da não-retrogradação do Espírito. Grifos nossos.
Nesse artigo, nesse trecho, Kardec está evidentemente refutando, de maneira firme, a mesma ideia transmitida nos Quatro Evangelhos de Roustaing (que somente seria lançado em 1865), de que a encarnação se daria apenas para expiação, isto é, quando o Espírito é “culpado”:
A ideia da encarnação como castigo, dissemos, é uma ideia totalmente ligada aos dogmas de Roustaing:
N. 59. Que é o que devemos pensar da opinião que se formula assim: “Do mesmo modo que, para o Espírito em estado de formação, a materialização nos reinos mineral e vegetal e nas espécies intermediárias e igualmente a encarnação no reino animal e nas espécies intermediárias é uma necessidade e não um castigo resultante de falta cometida, também, para o Espírito formado, que já tem inteligência independente, consciência de suas faculdades, consciência e liberdade de seus atos, livre arbítrio e que se encontra no estado de inocência e ignorância, a encarnação, primeiro, em terras primitivas, depois, nos mundos inferiores e superiores, até que haja atingido a perfeição, é uma necessidade e não um castigo”?
Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa.
O Espírito não é humanizado, também já o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana. Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para lhe sofrer as conseqüências.
ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I
É fácil observar a semelhança dessa ideia com aquele introduzida na 4a edição de O Céu e o Inferno: a de que a encarnação somente se dá quando o Espírito é culpado de um erro anterior.
Continuemos com as evidências da ideia original de Kardec e da Doutrina:
132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?
“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação […]
O Livro dos Espíritos
Para uns, é expiação; para outros, missão. “Para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação“, ou seja, a expiação, tratada no meio religoso como um processo de remissão de pecados pelos castigos divino, aqui, para o Espiritismo, é apenas o processo de aprendizado e de desenvolvimento do Espírito.
Contudo, a fatalidade não é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em conseqüência do gênero de vida que seu Espírito escolheu como prova, expiação ou missão. Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são inerentes.
O Livro dos Espíritos
O Espírito sofre as vicissitudes da exisência escolhida pelo Espírito, como prova, expiação ou missão.
É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?
A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação, caso em que ela se lhes torna um castigo. — S. Luís. (Paris, 1859.)
KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo IV — Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo > Instruções dos Espíritos. > Necessidades da encarnação. > 25. Grifos nossos.
Evidentemente, os Espíritos demonstram que a encarnação é necessária a todos, de maneira que, enquanto se desenvolvem, fazem sua parte na Criação.
Os exemplos de castigos imediatos são menos raros do que se crê. Se se remontasse à fonte de todas as vicissitudes da vida, ver-se-ia aí, quase sempre, a conseqüência natural de alguma falta cometida. O homem recebe, a cada instante, terríveis lições das quais infelizmente bem pouco aproveita.
Revista Espírita, 1864
Quase sempre as fontes de todas as vicissitudes da vida remontam à consequencia natural de alguma falta cometida.
[O homem de bem] Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas a decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.
O Evangelho Segundo o Espiritismo
Todas as vicissitudes da vida são provas ou expiações. Prova: tudo aquilo que nos serve ao aprendizado, todas as dificuldades da vida. Expiação: certos gêneros de provas, escolhidas para o exercício de desapego de uma imperfeição adquirida.
“Esta pergunta dos discípulos “É o pecado deste homem a causa de nascer cego” indica a intuição de uma existência anterior. Caso contrário, não teria sentido, porque o pecado que seria a causa de uma enfermidade de nascença deveria ter sido cometido antes do nascimento e, por consequência, em uma existência anterior. Se Jesus tivesse visto aí uma ideia falsa ele teria dito: “Como esse homem teria podido pecar antes de estar entre nós?” Em lugar disso ele lhes disse que, se o homem é cego, não significa que tenha pecado, mas, a fim de que o poder de Deus brilhe nele; é como dizer que ele devia ser o instrumento de uma manifestação do poder de Deus. Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso, porque Deus, que é justo, não poderia lhe impor um sofrimento sem compensação.”
KARDEC, Allan. A Gênese. 4a edição. “Cego de Nascença”. Grifos nossos.
Nesse trecho, onde Kardec trata da cura da cegueira, feita por Jesus, ele faz a seguinte observação: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso“. Ora, isso quer dizer que, para ele, e de acordo com o Espiritismo, as vicissitudes não se dão apenas como expiação, mas também como ferramenta de aprendizado. Esse trecho consta inclusive da 5a edição de A Gênese (a edição adulterada), e Kardec não pode ter se contradito em suas ideias em cada uma das obras. Esse não é o Kardec que conhecemos.
Motivo da adulteração
Todo aquele que está investigando o assunto seriamente, e que investigou também a adulteração de A Gênese, perceberá algo em comum entre as duas adulterações: o princípio do dogma da encarnação como o resultado do castigo pelo pecado – dogma fortemente limitador e aprisionante, repercutido por Roustaing e ensinado pelos Espíritos mistificadores que com ele se comunicavam, através da médium Emilie Collignon. Contra a sua teoria, existe um simples detalhe: Jesus.
Jesus, o Espírito mais evoluído que já encarnou entre nós, não tinha nada a “pagar”, posto que era Espírito puro. Como resolver esse problema? Dizendo que Jesus não encarnou, mas que, em verdade, foi um agênere, isto é, um Espírito materializado, que simplesmente nos enganou ao longo de sua trajetória.
O ponto é que, em O Céu e o Inferno, foram removidas as ideias doutrinárias que demonstravam a encarnação como necessária a todos, bons e maus, e foi acrescentada a ideia de que tudo o que passamos é fruto de expiações de erros de vidas passadas (item 10, cap. 7, Código Penal da Vida Futura); já na adulteração de A Gênese, não por acaso, o item 67 do capítulo XV foi removido, e, como demonstra Henri Netto,
[…] a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?
Ou seja: em A Gênese, para dar suporte às adulterações de O Céu e o Inferno, atacou-se a ideia que demonstra, pelo exemplo inequívoco, que a encarnação não serve apenas para expiação (acrescentando-se aqui que expiação é o ato consciente da escolha de provas visando o retorno ao bem, para os Espíritos que, em minoria, escolheram o apego ao erro e, assim, desenvolveram imperfeições). Removeu-se uma ideia doutrinária, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado às ideias doutrinárias.
Conclusão
De duas, uma: ou Kardec fez essa alteração, ou ele não fez essa alteração. Se ele mesmo fez essa alteração, então contradisse todo seu entendimento anterior e, além disso, demonstra um estado de saúde mental alterado, já que contradisse essa ideia n’A Gênese, inclusive em sua quinta edição, como demonstramos acima.
Ora, sabendo que Kardec deixa muito claro seu entendimento de que a encarnação não pode ser resultado exclusivo da expiação e conhecendo seu estado de saúde mental sadio, até o dia de sua morte, podemos chegar a apenas uma conclusão: essa obra foi adulterada.
A alteração é muito clara: “Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas”. Isso é claramente a ideia de Roustaing, e a essência desse capítulo foi perdida com a alteração, para implantar os mesmos dogmas que esse senhor aceitava e defendia:
“Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa”.
ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I, item 59
Muitos dirão, ainda, que o item 16 do cap. VII de O Céu e o Inferno (a versão adulterada) encerra o mesmo princípio removido do item 8, original:
16.º — O arrependimento é o primeiro passo para o aperfeiçoamento; mas sozinho não basta; são precisas ainda a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.
O arrependimento suaviza as dores da expiação, dando esperança e preparando as vias da reabilitação; mas somente a reparação pode anular o efeito, destruindo a causa; o perdão seria uma graça e não uma anulação.
Contudo, perguntamos: em que se torna a arrependimento, a expiação e a reparação, quando submetidas às ideias inseridas pelas adulterações, senão no cumprimento de uma sentença ou de um castigo? Em que se torna o erro, parte do aprendizado, senão em uma condenação? E, vendo sob esse ângulo, perguntamos: o indivíduo que é levado a pensar dessa maneira, como age ante à vida? Age austeramente, buscando superar o erro, ou, crendo-se condenado, se submete à inação ou, pior, descamba por mais erros ainda? E ante ao próximo, que sofre as vicissitudes da vida? Vê nele um irmão que requer o nosso apoio, um ser capaz de superar suas dificuldades pelo aprendizado, ou vê nele mais um condenado, sobre o qual nada se pode fazer, já que cumpre sua sentença? Finalmente: tudo isso leva ao estado de cooperação, em busca do progresso, ou leva ao materialismo e ao egoísmo?
São perguntas que cada um se deve fazer, de posse do conhecimento que, para mim, demorou três anos para ser clarificado e estabelecido. Quem sabe, com tudo isso, eu possa ajudar a diminuir esse tempo para você.
Inimigos do bem se esforçam por retardá-lo
É muito evidente que o capítulo mais importante de O Céu e o Inferno, justamente aquele que continha a essência da filosofia doutrinária, foi propositadamente adulterado. As ideias originalmente estabelecidas foram completamente remodeladas segundo dogmas ligados à ideia da queda pelo pecado, atrasando, por mais de 150 anos, o desenvolvimento do Espiritismo na face da Terra. Chega. Agora é hora de recuperar e de estudar. Recomendamos a leitura das nossas Obras Recomendadas.
Os esforços daqueles que tentam obter o domínio da verdade estão ligados às concepções de velho mundo. São Espíritos ainda incapazes de compreender a essência do Espiritismo e que, conscientemente ou não, lutam contra suas ideias de autonomia e de liberdade. Como diria Kardec, deixemos que o tempo se encarregue deles.
Dizem eles terem provado sumariamente a não adulteração e, assim, refutado todas as evidências em contrário. Assim sendo, peço a esses indivíduos que expliquem essa alteração ilógica e contraditória a toda a doutrina.
Como agem os sacerdotes
Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique.
Há poucos dias, comentei no vídeo ” O Livro A Gênese foi mesmo adulterado?”, publicado no canal Grupo Espírita Revelare, no Youtube:
Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois estou oculto no canal.
Allan Kardec e a revolução moral da humanidade
O seguinte artigo contém os conteúdos gentilmente disponibilizados pelo Centro Espírita Nosso Lar – Casas André Luiz, e correspondem ao evento recentemente realizado por Paulo Henrique de Figueiredo sobre o tema em destaque.
A apresentação pode ser facilmente baixada através deste link e também pode ser ouvida em Podcast, cujo áudio disponibilizamos a seguir.
Amaciante estraga a roupa
A palestra de Paulo Henrique de Figueiredo explica exatamente o que essa afirmação tem a ver com a mudança de mentalidade. Clique abaixo para ouví-la:
A seguir estão os tópicos da palestra, que podem ser verificados na apresentação disponibilizada e no áudio acima exposto.
ENCONTRO COM A CULTURA ESPÍRITA – Allan Kardec e a revolução moral da humanidade
O texto original de Zoroastro: a verdadeira mentalidade
O desvio dos ensinamentos originais de Zoroastro: a mentalidade falsa
Moisés e o Deus único
Jeová e Satã
Jesus e a mentalidade verdadeira
A adulteração de O Céu e o Inferno
A encarnação é uma necessidade
Devemos expor os inimigos do Espiritismo?
Um questionamento que sempre me vem à mente e creio que vem às mentes de muitos é: o que fazer ante aos inimigos do Espiritismo? Devemos expô-los ou fazer isso seria falta de caridade?
Muitos recomendam que sigamos nosso caminho, fazendo a nossa parte, sem nem sequer citar esses indivíduos. Decerto, gastar um tempo precioso para ficar apenas refutando ou criticando os inimigos da Doutrina Espírita seria empregar um tempo precioso em uma guerra sem fim. Não, não vejo isso como útil. Contudo, penso de outro lado: e aqueles que os ouvem?
Quem são os inimigos do Espiritismo
Aqui é necessário fazer uma distinção importante: é que o Espiritismo tem seus inimigos declarados, mas também os tem em suas fileiras. Os primeiros são aqueles que criticam a Doutrina Espírita abertamente e, quase sempre sem nem saber do que falam, atacam-na de todos os lados. Esses são os menos perigosos. Já o segundo gênero de inimigos é aquele dos que se dizem espíritas, estudam a superfície da Doutrina, mas, voluntariamente ou não, atacam-na de dentro com a divulgação das mais falsas ideias, oriundas da aceitação cega das comunicações espíritas. Esses são os inimigos mais temerosos, e o Espiritismo os tem entre encarnados e desencarnados.
Muito difícil e desaconselhável será julgar sumariamente as intenções dos outros. Nalguns, elas podem ser bem aparentes e mesmo declaradas; em outros, elas podem até ser boas, mas, sendo o indivíduo propenso ao orgulho e à vaidade, dentre outras imperfeições, tornam-se nulas ou até danosas pelos efeitos que produzem. Mesmo aqui, temos outro problema, pois esses efeitos muitas vezes não são diretamente perceptíveis, mas se constroem por uma série de fatores, ao longo do tempo, ideia sobre ideia, sempre originadas da aceitação cega das opiniões isoladas de Espíritos encarnados e desencarnados.
Uma maneira muito simples de constatar o que digo, para o espírita estudioso das obras de Kardec, é fazer uma busca por “Espiritismo” no Youtube e muito facilmente encontrará grandes canais que, dizendo falar em Espiritismo, ensinam e sustentam as ideias absurdas e danosas ao Espiritismo, dentre alguns acertos. Na maioria das vezes não são inimigos do Espiritismo e até desejam fazer o bem, mas, pela resistência em estudar a ciência que dizem abraçar, servem à divulgação de ideias contrárias à Doutrina. É assim que vemos canais como o “Espiritismo Raiz“, por um tempo o maior canal brasileiro dito “espírita”, afirmando e ensinando, dentre outros erros, que os Espíritos encarnam apenas para expiações, que seriam, segundo ele diz, pagamentos de débitos — uma completa distorção doutrinária que leva a diversos efeitos negativos, como demonstrei neste artigo. Eduardo Sabbag, dono desse canal, recentemente fez participações no canal Casa Plataforma de Oração, onde o principal “palestrante” afirma, supostamente mediunizado, que ele seria a reencarnação de Allan Kardec e em vários momentos se compara a Jesus, para então trazer temas ligados à ufologia e às ideias ramatissistas, sustentadas e divulgadas especialmente pelo médium Hercílio Maes. Fez também participação no Canal Espírita, do Luiz Fernando Amaral (que se apresenta como “professor” nesse canal) que, dentre alguns acertos (quando retoma Kardec) comete diversos enganos, quando parte da aceitação cega de comunicações de Espíritos, principalmente dadas via romances.
Todos esses enganos seriam facilmente evitados pelo estudo da Revista Espírita e de outras obras de Kardec.
Os Espíritos ligados ao mal, inimigos do Espiritismo, se valem dos indivíduos que não estudam a ciência espírita e que a tudo aceitam e publicam, para dificultar o avanço dessa doutrina cuja filosofia tem o potencial de transformar o mundo. Pela vaidade em crerem-se plenos de sabedoria por, invariavelmente, julgarem-se especialmente cercados apenas de Espíritos da mais alta evolução, servem ao propósito dos Espíritos mistificadores.
Então, que fazer se eles não querem estudar? Que fazer se respondem com resistência e truculência ao apontarmos que algo que divulgam não está conforme o Espiritismo ensina?
Certamente não podemos forçá-los a um entendimento que não querem adquirir, e caberá ao tempo e à punição oferecida por suas próprias consciências a cobrança do mal que fizeram ao desviar ou atrasar muitos com suas ideias e com suas resistências em estudar. Infelizmente, essas pessoas encontram, nos meios digitais, um meio de controle sobre suas ideologias, bastando remover comentários ou bloquear usuários que discordem deles.
São grandes canais. Contam com centenas de milhares de seguidores. Certamente têm, dentre estes, grande número de pessoas que apenas querem acreditar e que não se esforçam por raciocinar, talvez até por desconhecimento (que eles poderiam estar ajudando a reduzir). Mas, cedo ou tarde, suas consciências despertarão e, então, passarão a buscar respostas.
Penso que o melhor que podemos fazer é produzir material apontando o verdadeiro entendimento doutrinário. Assim podemos dar a chance de que as pessoas que busquem por determinado assunto, ou mesmo por esses canais, possam encontrar o conteúdo proveniente da ciência espírita. Aprendamos a demonstrar seus erros, sem cair em erro maior, que seria o de levar ao nível pessoal das acusações depreciativas. Podemos discordar e apontar o erro em suas ideias, como Kardec fazia, baseando-nos no Espiritismo para isso, como recomenda Kardec na Revista Espírita de 1863:
“É assim que procedem os detratores do Espiritismo: por suas calúnias eles mostram as fraquezas de sua própria causa e a desacreditam, mostrando a que lamentáveis extremos são obrigados a recorrer para sustentá-la. Que peso pode ter uma opinião fundada em erros manifestos? De duas, uma: ou os erros são voluntários e então está vista a má-fé; ou são involuntários e o autor prova a sua inconsequência, falando do que não sabe. Num caso, como no outro, perde o direito à confiança.
O Espiritismo não é obra que marche na sombra. Ele é conhecido; seus princípios são formulados com clareza, precisão e sem ambiguidades. A calúnia não poderia, pois, atingi-lo. Para convencê-la de impostura basta dizer: leia e veja. Sem dúvida, é útil desmascará-la. Mas é preciso fazê-lo com calma, sem azedume nem recriminação, limitando-se a opor, sem palavras supérfluas, o que é ao que não é. Deixai aos vossos adversários a cólera e as injúrias, e guardai para vós o papel da força verdadeira: o da dignidade e da moderação.”
Revista Espírita, Março de 1863. Grifos meus.
Assim, não percamos tempo em ataques pessoais. É claro que esses se vitimizarão, visando manipular seu público de fiéis. Não caiamos no mesmo erro. Ajamos como o bom pesquisador, o bom cientista, que discute sobre fatos e evidências, e não sobre opiniões e muito menos sobre as pessoas que as emitem. É o que Kardec sempre fez.
“Tereis que lutar não só contra os orgulhosos, os egoístas, os materialistas e todos esses infelizes que estão imbuídos do espírito do século, mas ainda, e sobretudo, contra a turba de Espíritos enganadores que, encontrando em vosso meio uma rara reunião de médiuns, pois a tal respeito sois os mais aquinhoados, em breve virão assaltar-vos, uns com dissertações sabiamente combinadas, nas quais, graças a tiradas piedosas, insinuarão a heresia ou algum princípio dissolvente; outros com comunicações abertamente hostis aos ensinos dados pelos verdadeiros missionários do Espírito de Verdade. Ah! Crede-me, não temais desmascarar os embusteiros que, novos Tartufos, se introduziriam entre vós sob a máscara da religião”
Espírito de Erasto, Revista Espírita de 1861. Grifos meus.
A Guerra entre Israel e Palestina e o Espiritismo
Existem pessoas idosas, crianças e bebês sendo assassinadas ou capturadas pelo grupo terrorista Hamas, atualmente, gerando uma guerra entre Israel e Palestina. E o que dirá o Espiritismo? Por que Deus permite tal coisa? Estariam essas pessoas quitando débitos de vidas passadas com esse sofrimento?
Pasmem: tem julgadores de plantão querendo dizer que a chacina de jovens na rave teria relação com um castigo divino, por estarem fazendo uma festa, supostamente com drogas, na “Terra Santa”. Um completo é maldoso absurdo!!
Uma vez mais precisamos lembrar: para falar segundo o Espiritismo, é necessário buscar o que existe desenvolvido pelo método científico necessário, coisa que, até hoje, foi feita apenas por Kardec. E aqui vai uma dica de ouro:
Se alguém disser falar do Espiritismo, mas diz que as vítimas de quaisquer calamidades ou crimes estão “pagando” por dívidas de vidas passadas, ou que é efeito do “karma“, ou que estão resgatando débitos de vidas passadas, pare de acompanhá-lo e vá buscar o que diz a ciência espírita. Estamos aqui afirmando, taxativamente: isso não é Espiritismo! Espiritismo você encontra nas obras recomendadas, ao final do texto.
Espiritismo não fala em karma, nem em pagar dívidas pela encarnação
É uma luta ainda sem fim, e toda vez que acontece qualquer evento crítico que abala a população, temos que voltar ao mesmo assunto, em nome do Espiritismo verdadeiro. Agora é a guerra em Israel. Ano passado, foram os ataques terroristas às escolas brasileiras. Antes, um desastre climático ou cataclismo como aquele que solapou Petrópolis ou o triste acidente com o time da Chapecoense. E sempre aparecem os indivíduos levianos, que nunca se debruçaram para estudar o Espiritismo, dizendo verdadeiros absurdos que não correspondem à Doutrina Espírita ou afirmando terem recebido psicografias das vítimas, afirmando que elas teriam sido “malvados soldados que faziam crueldades no passado” (sic!).
Somos obrigados a fazer nossa parte, relembrando que estamos vivos na matéria densa, sujeitos às leis da matéria e, também, às decisões criminosas de outras pessoas, o que nunca, jamais, em hipótese alguma, serve para “resgatar débitos de vidas passadas”!
Fora as provas impostas pelas escolhas alheias ou pela força da natureza, ou, ainda, aquelas que resultam das ações presentes do próprio indivíduo, existem também os gêneros de provas que o Espírito pode ter escolhido passar, mas não para “pagar” por nada:
O Espírito pode escolher provas simplesmente para aprender e progredir.
Também pode escolher determinadas provas por entender que conquistou uma determinada imperfeição, escolhendo então passar por desafios e oportunidades com vistas a desapegar dessa imperfeição, que o faz sofrer.
Falando sobre os flagelos destruidores, podemos aplicar parte do entendimento a esses acontecimentos também:
738.
a) — Mas nesses flagelos tanto sucumbe o homem de bem como o perverso. Será justo isso?
“Durante a vida, o homem tudo refere ao seu corpo; entretanto, de maneira diversa pensa depois da morte. Ora, conforme temos dito, a vida do corpo bem pouca coisa é. Um século no vosso mundo não passa de um relâmpago na eternidade. Logo, nada são os sofrimentos de alguns dias ou de alguns meses, de que tanto vos queixais. Representam um ensino que se vos dá e que vos servirá no futuro. Os Espíritos, que preexistem e sobrevivem a tudo, formam o mundo real (85). Esses os filhos de Deus e o objeto de toda a sua solicitude. Os corpos são meros disfarces com que eles aparecem no mundo. Por ocasião das grandes calamidades que dizimam os homens, o espetáculo é semelhante ao de um exército cujos soldados, durante a guerra, ficassem com seus uniformes estragados, rotos, ou perdidos. O general se preocupa mais com seus soldados do que com os uniformes deles.”
b) — Mas nem por isso as vítimas desses flagelos deixam de o ser.
“Se considerásseis a vida qual ela é, e quão pouca coisa representa com relação ao infinito, menos importância daríeis a isso. Em outra vida, essas vítimas acharão ampla compensação aos seus sofrimentos, se souberem suportá-los sem murmurar.”
O Livro dos Espíritos
O Espiritismo, longe de falar sobre carma e pagamento de dívidas, demonstra o contrário!
Também recomendamos cautela com essas teorias de que são eventos relacionados à transição planetária, por serem teorias que não encontram respaldo no Espiritismo.
Retornemos a Kardec. É importante. Chega de opiniões. O Espiritismo é uma ciência! Se mais pessoas estivessem defendendo a Doutrina, mais chance teriam outras de encontrar bons conteúdos, e não esses baseados em falsas ideias.
Cabe resgatar o que consta em O Livro dos Espíritos sobre as guerras:
742. O que impele o homem à guerra?
“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem: o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas. E, quando se torna necessária, sabe fazê-la com humanidade.”
743. Da face da Terra, algum dia, a guerra desaparecerá?
“Sim, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Nessa época, todos os povos serão irmãos.”
744. Que objetivou a Providência, tornando necessária a guerra?
“A liberdade e o progresso.”
a) — Se a guerra deve ter por efeito o advento da liberdade, como pode frequentemente ter por objetivo e resultado a subjugação?
“Subjugação temporária, para pressionar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa.”
745. Que se deve pensar daquele que suscita a guerra para proveito seu?
“Grande culpado é esse e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição ((O que quer dizer: quando esse Espírito compreender o mau que causou, sua consciência lhe acusará de cúmulo ao qual chegaram suas imperfeições. Eis o motivo de demandar muitas encarnações em expiação, escolhendo provas que poderão lhe ajudar a se resgatar de seus desvios. Não significa que ele terá que reencarnar com cada uma de suas vítimas, mesmo porque a maioria delas não se apega ao fato e segue seu caminho de evolução (Notas nossas).)).”
O Livro dos Espíritos
Nossas condolências às vítimas dessa triste guerra entre Israel e Palestina. Oremos para que esses Espíritos não se prendam às maldades de outros e possam seguir em frente. Esse é um dos melhores efeitos do Espiritismo, que, infelizmente, elas provavelmente não conheceram.
Curiosidades
Kardec diversas vezes realizou evocações de Espíritos mortos nas guerras, de simples soldados a oficiais. Temos, por exemplo:
Minha missão neste artigo é te provocar sobre o assunto: pode-se praticar a mediunidade em casa?. Quero que você não consiga se conter, clicando no botão, ao final dele, para baixar um PDF falando sobre a questão das comunicações com os Espíritos. Bons estudos!
Então quer dizer que não é perigoso chamar os Espírito nos lares?
Outra falácia que se propagou, e queremos crer que seja mais por ignorância do que por maldade daqueles que a defendem, é a do perigo de se comunicar com os Espíritos nos lares. Ora, se se pode comunicar com eles mesmo nos presídios, com mais forte razão se pode chamar os seres queridos dentro dos lares.
Não é a evocação que atrai os Espíritos
Outro ponto importante a ser considerado, à luz do Espiritismo, é que os Espíritos não são atraídos pelo chamado direto dos homens, ou seja, pela evocação. Muitos dos que sofreram ou sofrem uma obsessão jamais evocaram os Espíritos e sequer sabem que isso seria possível. Todas as curas de obsessões que foram publicadas por Allan Kardec em sua Revista, eram desse número. Tal fato pudemos constatar com relação aos que sofriam de obsessões hoje em dia, e que foram curadas.
Crianças nas reuniões espíritas
Muitas pessoas talvez se perguntem: as crianças podem participar das reuniões espíritas no lar? A essa questão poderíamos responder com outra: as crianças fazem parte da família? Ninguém poderia afirmar que não, ou dizer que para ser um membro da família é preciso ter uma idade mínima. Ora, o que são as crianças? Não são elas Espíritos encarnados, para os quais o mundo espírita não é estranho? As crianças não têm familiaridade com seus Anjos, que são também Espíritos, desde o berço, e mesmo antes de nascer?
Trechos de artigo sobre mediunidade nos animais, obtido da Revista Espírita de agosto de 1861.
Para começar, entendamo-nos acerca dos nossos fatos. Que é um médium? É o ser, é o indivíduo que serve aos Espíritos como traço de união, a fim de que estes facilmente possam comunicar-se com os homens, Espíritos encarnados. Por consequência, sem médium, nada de comunicações tangíveis, mentais, escritas, físicas, nem de qualquer espécie.
Abordo hoje o problema da mediunidade dos animais, levantado e sustentado por um dos vossos mais fervorosos adeptos. Em virtude do axioma quem pode o mais pode o menos, pretende ele que podemos mediunizar aves e outros animais, deles nos servindo em nossas comunicações com a espécie humana. É o que, em Filosofia, ou antes, em Lógica, chamais pura e simplesmente um sofisma.
…
Os homens estão sempre dispostos a exagerar tudo. Uns ─ e não falo aqui dos materialistas ─ recusam uma alma aos animais e outros querem conceder-lhes uma, por assim dizer, semelhante à nossa. Por que querer assim confundir o perfectível com o imperfectível? Não, não. Estejam bem convictos de que o fogo que anima os animais, o sopro que os faz agir, mover-se e falar sua linguagem não tem, até o presente, nenhuma aptidão para se misturar, para unir-se, para fundir-se com o sopro divino, a alma etérea, o Espírito, numa palavra, que anima o ser essencialmente perfectível, o homem, esse rei da Criação. Ora, o que marca a superioridade da espécie humana sobre as outras espécies terrenas não é essa condição essencial de perfectibilidade? Então! Reconhecei, pois, que não é possível assimilar ao homem, único perfectível em si e em suas obras, qualquer indivíduo das outras raças vivas na Terra.
…
Certamente os Espíritos podem tornar-se visíveis e tangíveis pelos animais, muitas vezes tomados de súbito por esse pavor que vos parece infundado, e que é causado pela vista de um ou vários desses Espíritos mal-intencionados para com os indivíduos presentes ou para com os donos desses animais. Muitas vezes encontrais cavalos que não querem avançar nem recuar ou que empacam ante um obstáculo imaginário. Pois bem! Tende certeza de que o obstáculo imaginário é frequentemente um Espírito ou um grupo de Espíritos que se divertem impedindo-lhes o avanço. Lembrai-vos da jumenta de Balaão, que vendo um anjo à sua frente e, temendo a sua espada chamejante, obstinava-se em não avançar. É que antes de se tornar visível a Balaão, o anjo quis mostrar-se apenas para o animal. Mas, repito, não mediunizamos diretamente nem os animais, nem a matéria inerte. Sempre nos é preciso o concurso consciente ou inconsciente de um médium humano, porque nos é necessária a união de fluidos similares, o que não encontramos nos animais, nem na matéria bruta.
Ele diz que o Sr. Thiry magnetizou seu cão. Que aconteceu? Ele o matou, porque esse infeliz animal depois caiu numa espécie de atonia, de langor, em consequência da magnetização. Com efeito, inundando-o de um fluido tirado de uma essência superior à essência especial de sua natureza, esmagou-o e sobre ele agiu, embora mais lentamente, à maneira de um raio. Assim, como não há nenhuma identificação possível entre o nosso perispírito e o envoltório fluídico dos animais propriamente ditos, nós os esmagaríamos instantaneamente se os mediunizássemos.
Assentado isto, reconheço perfeitamente que nos animais existem aptidões diversas; que certos sentimentos; que certas paixões idênticas às paixões humanas neles se desenvolvem; que são sensíveis e reconhecidos, vingativos e odientos, conforme se atue bem ou mal com eles. É que Deus, que nada faz incompleto, deu aos animais companheiros ou servos do homem, qualidades de sociabilidade que faltam inteiramente aos animais selvagens que habitam as solidões.
Resumindo: os fatos mediúnicos não se podem manifestar sem o concurso consciente ou inconsciente do médium, e só entre os encarnados, Espíritos como nós, é que podemos encontrar os que nos podem servir de médiuns. Quanto a educar cães, aves ou outros animais para fazerem tais ou quais exercícios, é assunto vosso e não nosso.
ERASTO.
Revista Espírita, agosto de 1861 – Os animais médiuns
Publicado na Revista Espírita de novembro de 1858. Na íntegra:
Recentemente os jornais noticiaram o seguinte fato: “Ontem (7 de abril de 1858) pelas sete horas da noite, um homem de cerca de cinquenta anos, vestido decentemente, apresentou-se no estabelecimento da Samaritana e pediu um banho. O empregado admirou-se de que, após duas horas, o indivíduo não chamasse; decidiu-se a entrar no banheiro para ver se não se sentira indisposto. Testemunhou então um horrível espetáculo: o infeliz havia cortado a garganta com uma navalha e todo o sangue se havia misturado à água da banheira. Desde que a identidade não pôde ser estabelecida, o cadáver foi transportado para o necrotério.”
Pensamos que seria possível tirar um ensinamento útil à nossa instrução da conversa com o Espírito desse homem. Assim, evocamo-lo a 13 de abril, apenas seis dias após a sua morte.
1. ─ Peço a Deus Todo-Poderoso permita ao Espírito do indivíduo que se suicidou a 7 de abril de 1858, nos banhos da Samaritana, venha comunicar-se conosco.
─ Espera… (Depois de alguns instantes): Ei-lo.
OBSERVAÇÃO: Para compreender esta resposta é preciso que se saiba que, em geral, em todas as reuniões regulares, há um Espírito familiar, do médium ou da família, que está sempre presente, sem ser preciso chamá-lo. É ele que faz virem os que são evocados e, conforme seja mais ou menos elevado, serve como mensageiro ou dá ordens aos Espíritos que lhe são inferiores. Quando nossas reuniões têm como intérprete a Srta. Ermance Dufaux, é sempre o Espírito de São Luís que voluntariamente toma esse encargo. Foi ele que deu a resposta acima.
2. ─ Onde você está agora?
─ Não sei… Dizei-me onde me encontro.
3. ─ Na Rua Valois (Palais-Royal), n.º 35, numa reunião de pessoas que se ocupam de estudos espíritas e que lhe são benevolentes.
─ Dizei-me se estou vivo… Eu sufoco no caixão.
4. ─ Quem o convidou a vir até nós?
─ Senti-me aliviado.
5. ─ Que motivo o levou ao suicídio?
─ Estou morto?… Não!… Estou em meu corpo… Não sabeis quanto sofro!… Eu sufoco!… Que uma mão piedosa venha dar-me um fim!
OBSERVAÇÃO: Sua alma, embora separada do corpo, ainda está completamente mergulhada naquilo que poderíamos chamar o turbilhão da matéria corpórea; as ideias terrenas ainda se acham vivazes. Ele não acredita que está morto.
6. ─ Por que não deixou nenhum elemento de identificação?
─ Estou abandonado. Fugi do sofrimento para encontrar a tortura.
7. ─ Você tem ainda os mesmos motivos para ficar incógnito?
─ Sim. Não coloqueis um ferro em brasa na ferida que sangra.
8. ─ Poderia dar-nos o seu nome, idade, profissão e domicílio?
─ Não a tudo. Não!…
9. ─ Você tinha uma família, uma mulher, filhos?
─ Eu estava abandonado. Ninguém me amava.
10. ─ O que você fez para não ser amado por ninguém?
─ Quantos há como eu!… Um homem pode estar abandonado no meio da própria família, quando nenhum coração o ama.
11. ─ Você experimentou alguma hesitação ao realizar o suicídio?
─ Eu tinha sede de morrer… Esperava o repouso.
12. ─ Como é que a ideia do futuro não o levou a renunciar àquele desígnio?
─ Eu não cria mais no futuro; estava sem esperanças. O futuro é a esperança.
13. ─ Que reflexões você fez ao sentir extinguir-se a vida?
─ Não refleti; senti… Mas a minha vida não se extinguiu… minha alma está ligada ao corpo… não morri…, entretanto sinto que os vermes me roem.
14. ─ Que sentimento experimentou no momento em que se completou a morte?
─ Ela está completa?
15. ─ Foi doloroso o momento em que se extinguiu a vida?
─ Menos doloroso do que depois. Então, só o corpo sofreu.
São Luís continua:
─ O Espírito libertava-se de um fardo que o esmagava. Ele sentia a volúpia da dor.
(A São Luís): ─ Esse estado é o que sempre se segue ao suicídio?
─ Sim. O Espírito do suicida fica ligado ao corpo até o termo de sua vida. A morte natural é o enfraquecimento da vida. O suicídio a interrompe bruscamente.
─ Esse estado será o mesmo em toda morte acidental independente da vontade e que abrevia a duração natural da vida?
─ Não. Que entendeis por suicídio? O Espírito só é culpado por suas obras.
OBSERVAÇÃO: Havíamos preparado uma série de perguntas que nos propuséramos dirigir ao Espírito desse homem sobre a sua nova existência. Diante de suas respostas, elas perderam o sentido. Era evidente, para nós, que nenhuma consciência tinha ele da situação. A única coisa que nos pôde descrever foi o seu sofrimento.
Essa dúvida sobre a morte é muito comum nos recém-falecidos e principalmente naqueles que em vida não elevaram a alma acima da matéria. À primeira vista é um fenômeno bizarro, mas explicável muito naturalmente. Se perguntarmos a uma pessoa que pela primeira vez é levada ao sonambulismo se está adormecida, ela responderá quase sempre que não, e sua resposta é lógica. O interrogante é que formula mal a pergunta, servindo-se de um termo impróprio. A ideia de sono, no falar comum, está ligada à da suspensão de todas as faculdades sensitivas. Ora, o sonâmbulo, que pensa e vê; que tem consciência de sua liberdade moral, não crê que durma e, com efeito, não dorme, na acepção vulgar do vocábulo. Eis por que responde que não está dormindo, até familiarizar-se com essa nova maneira de entender a coisa. O mesmo acontece com o homem que acaba de morrer. Para ele a morte era o nada. Ora, como ocorre com o sonâmbulo, ele vê, sente a fala. Para ele, portanto, a vida continua, e ele assim o afirma, até que tenha adquirido consciência de seu novo estado.
Foto de capa: Daniel Reche: https://www.pexels.com/pt-br/foto/foto-em-escala-de-cinza-de-um-homem-cobrindo-o-rosto-com-as-maos-3601097/
Problemas morais – Suicídio por amor
O artigo seguinte, sobre o suicídio de um rapaz, em um ato de emoções incontidas, foi publicado na Revista Espírita de novembro de 1858. Na íntegra:
Há sete ou oito meses, Luís G…, sapateiro, namorava a jovem Vitorina R…, pespontadeira de botinas, com a qual deveria casar-se brevemente, pois os proclamas estavam sendo publicados. Estando as coisas nesse ponto, os jovens se consideravam quase definitivamente unidos e, como medida de economia, o sapateiro vinha fazer as refeições em casa da noiva.
Tendo vindo, quarta-feira última, como de costume, cear em casa da pespontadeira((costureira)), sobreveio uma discussão a propósito de uma futilidade. Obstinaram-se, de uma e de outra parte, e as coisas chegaram ao ponto em que Luís deixou a mesa e se foi, jurando não mais voltar.
Entretanto, no dia seguinte, o sapateiro, muito confuso, veio pedir perdão. Diz-se que a noite é boa conselheira, mas a operária, talvez prevendo, depois da cena de véspera, o que poderia acontecer quando não mais houvesse tempo para voltar atrás, recusou reconciliar-se e nem os protestos, nem as lágrimas, nem o desespero puderam vencê-la. Entretanto, como já se houvessem passado vários dias desde aquele arrufo, esperando que a sua amada estivesse mais tratável, anteontem à noite Luís quis tentar uma última explicação: chegou-se, bateu à porta de modo a se dar a conhecer, mas ela se recusou a abrir. Novas súplicas do pobre abandonado, novos protestos através da porta, mas nada demoveu a implacável eleita.
“Então adeus, ó malvada!” exclamou enfim o pobre rapaz, “Adeus para sempre! Procure um marido que a queira tanto quanto eu!”
Ao mesmo tempo a moça escutou uma espécie de gemido abafado, depois como que o ruído de um corpo que caísse escorregando ao longo da porta, e tudo entrou em silêncio. Ela pensou que Luís se houvesse sentado à soleira para esperar sua primeira saída, mas prometeu a si mesma não pôr o pé na rua enquanto ele lá estivesse.
Decorrido apenas um quarto de hora, um dos inquilinos que passava no pátio com uma luz gritou pedindo socorro. Logo chegaram os vizinhos e a senhorita Vitorina, tendo aberto também a sua porta, soltou um grito de horror, ao perceber no chão o corpo de seu noivo, pálido e inanimado. Todos se apressaram em prestar-lhe auxílio e procurar um médico, mas logo verificaram que tudo era inútil, pois ele já deixara de existir. O infeliz moço havia enterrado no peito a faca de sapateiro e o ferro ficara na ferida.
O fato que encontramos no Le Siècle de 7 de abril último despertou-nos a ideia de dirigir a um Espírito superior algumas perguntas sobre as suas consequências morais. Ei-las aqui, com as respectivas respostas, dadas pelo Espírito de São Luís na sessão da Sociedade do dia l0 de agosto de 1858.
1. ─ A moça, causa involuntária da morte do namorado, tem responsabilidade? ─ Sim, porque não o amava.
2. ─ Para evitar essa desgraça, deveria ela desposá-lo, embora não o amasse? ─ Ela buscava uma ocasião para se separar dele; fez no começo de sua ligação o que teria feito mais tarde.
3. ─ Assim a culpabilidade consiste em ter nele alimentado sentimentos de que não partilhava e que foram a causa da morte do rapaz? ─ Sim. É isto mesmo.
4. ─ Neste caso, sua responsabilidade deve ser proporcional à falta, que não deve ser tão grande quanto se ela tivesse, de caso pensado, provocado a morte. ─ Isto salta aos olhos.
5. ─ O suicídio de Luís encontra justificativa no desvario em que o mergulhou a obstinação de Vitorina? ─ Sim, porque seu suicídio, provocado pelo amor, é menos criminoso aos olhos de Deus do que o do homem que quer livrar-se da vida por covardia.
OBSERVAÇÃO: Dizendo que esse suicídio é menos criminoso aos olhos de Deus, evidentemente significa que há criminalidade, posto que menor. A falta consiste na fraqueza que ele não soube vencer. É sem dúvida uma prova a que sucumbiu. Ora, os Espíritos nos ensinam que o mérito está em lutar vitoriosamente contra as provas de todo gênero, que são a essência da vida terrena.
Evocado num outro dia, foram feitas ao Espírito de Luís C… as seguintes perguntas, a que respondeu:
1. ─ Que pensais da ação que praticastes? ─ Vitorina é uma ingrata. Errei em matar-me por ela, pois ela não o merecia.
2. ─ Então ela não vos amava? ─ Não. A princípio pensou que sim, mas estava iludida. A cena que fiz abriulhe os olhos. Depois, sentiu-se feliz com esse pretexto para desembaraçar-se de mim.
3. ─ E vós a amáveis sinceramente? ─ Eu tinha paixão por ela. Acredito que era apenas isso. Se eu a amasse com puro amor, não teria querido magoá-la.
4. ─ Se ela soubesse que realmente queríeis matar-vos, ela teria persistido na recusa? ─ Não sei. Não creio, pois ela não era má. Entretanto, teria sido infeliz. Para ela foi melhor assim.
5. ─ Ao chegar à sua porta tínheis intenção de vos matar, caso fosse recusado? ─ Não. Nem pensava nisso. Não a supunha tão obstinada. Somente quando vi sua teimosia é que fui tomado por uma vertigem.
6. ─ Parece que não lamentais o suicídio senão porque Vitorina não o merecia. É vosso único sentimento? ─ Neste momento, sim. Ainda me acho perturbado. Parece-me estar à sua porta. Sinto, porém, algo que não posso definir.
7. ─ Compreendereis mais tarde? ─ Sim, quando estiver desembaraçado… O que fiz foi ruim. Deveria tê-la deixado tranquila… Fui fraco e sofro as consequências… Como vedes, a paixão leva o homem à cegueira e a cometer erros absurdos. Ele só compreende quando é tarde demais.
8. ─ Dissestes que sofreis as consequências. Qual a pena que sofreis? ─ Errei abreviando a vida. Não deveria tê-lo feito. Deveria resistir em vez de acabar com tudo prematuramente. Por isso sou infeliz. Sofro. É sempre ela que me faz sofrer. Parece-me estar ainda à sua porta. Que ingrata! Não me faleis mais nisto. Não quero mais pensar, pois isto me faz muito mal. Adeus.
Mediunidade: Espiritismo, a Umbanda e as demais religiões
Há pouco tempo, demonstrei, em artigo e em vídeo, que o motivo do nascimento da Umbanda se deu por conta de uma atitude absurda de um centro espírita que proibiu que se comunicassem Espíritos como os dos “pretos-velhos”, reconhecidos, na Umbanda, como uma de suas entidades. Pensavam, erradamente, que a mediunidade pertence ao Espiritismo. Triste realidade de uma doutrina distorcida, formada pela cooperação de grupos e indivíduos oriundos até mesmo do catolicismo e do protestantismo, que a estudavam, a despeito de suas religiões.
Hoje, o Movimento Espírita, que acusa outras religiões de “misticismo”, também adota várias ideias místicas, em detrimento do conhecimento doutrinário existente.
Acontece que esse desentendimento se deu, de ambas as partes, pelo desconhecimento do que realmente seja o Espiritismo, que, naquela época, já se encontrava deturpado em solo brasileiro. Do lado dos espíritas, que quiseram ditar a verdade baseados em falsos conceitos, se houvessem conhecido o conteúdo da Revista Espírita, saberiam o quanto tal atitude seria descabida, já que Kardec demonstrou a utilidade de se evocar todos os Espíritos, com um detalhe: não para ouvi-los e neles se acreditar sem raciocinar, mas para poder estudar suas comunicações de forma psicológica.
Antes de continuar, preciso dizer que, se você acredita que sabe o suficiente e que não precisa saber de mais nada, este artigo não é para você. Caso contrário, se você tem o interesse de conhecer os fatos e, assim, julgar por sua própria consciência, continue comigo até o final.
Quero dizer, para que fique claro, baseando-me para isso no conhecimento adquirido pelo estudo: todos os Espíritos tem algo a ensinar, embora não da mesma maneira, da mesma forma que podemos aprender com as palavras dos sábios, que buscamos interiorizar, e com os exemplos dos criminosos, que buscamos não repetir. É assim que, por exemplo, Kardec e outros encontravam aprendizado em desde o Espírito-guia da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, São Luís, até no estudo do Espírito do trapeiro da rua Noyers, que assustava as pessoas do local e atirava pedras nas vidraças (leia Revista Espírita 1860 » Agosto » O trapeiro da rua de Noyers).
Dissidências
Infelizmente, com a dissidência, os primeiros fundadores da religião da Umbanda não se afastaram apenas do Movimento Espírita, com seus erros, mas também da Doutrina Espírita, que foi o resultado dos esforços conjuntos e colaborativos, coordenados por Allan Kardec, no estudo metodológico e sistemático de milhares de evocações, comunicações espontâneas e de fenômenos espíritas diversos. A Umbanda não foi o único caso.
Mas não estou aqui para apontar dedos para ninguém. Sou da opinião de que tudo foi se enrolando pela “força das coisas”, isto é, as pessoas apenas repetiam aquilo que eram ensinadas. Não é demais repetir: o Espiritismo, quando realmente ganhou força no território brasileiro, já chegou adulterado em princípios e bastante influenciado pelas ideias de Jean-Baptiste Roustaing, quem escolheu acreditar cegamente em Espíritos que alimentavam sua vaidade por declara-lo o “revelador das revelações” e quem rapidamente se voltou contra Kardec quando este buscou avisá-lo do perigo em assim proceder, ao invés de tomar o cuidado de questionar os Espíritos e sua própria razão. A própria FEB – Federação Espírita Brasileira – autoproclamada responsável pelos rumos do Espiritismo no Brasil, adotou princípios de Roustaing desde suas origens, e esse é um dos maiores motivos de as evocações terem sido abolidas neste país, influência essa que se espalha hoje sobre o mundo e que tornou o Movimento Espírita uma religião, muito afastada da ciência que em verdade é o Espiritismo.
Por conta desse afastamento do Espiritismo, substancialmente estigmatizado pelas ações, práticas e palavras dos “espíritas” brasileiros, inúmeras foram as dissidências do Movimento Espírita, ora para outras religiões, ora para a descrença. Mas, aqui, chegamos ao problema da questão: a mediunidade, para aqueles que a possuíam, quase nunca se interrompia pela saída do Movimento Espírita, que não a detém. Assim, quase sempre, passavam a viver a mediunidade da forma como sabiam e como podiam, afastados do conhecimento gerado por aquele trabalho colaborativo do qual Kardec foi o responsável, como era necessário ser naquele momento.
Estigma
Esse estigma, gerado pelo Movimento Espírita, fez com que, por muito tempo, e ainda hoje – infelizmente – pessoas de religiões como a Umbanda, que praticam a mediunidade, olhassem para Allan Kardec com preconceito e até com certa raiva, crendo, muitas vezes, que ele havia fundado uma religião onde pretendia se adonar da verdade. Nada mais falso, mas a verdade era muito difícil de ser alcançada por detrás de tantas falsas ideias que o Movimento Espírita cultivava (e ainda cultiva). Kardec nunca tomou para si a verdade. Seu papel foi de um pesquisador dedicado, que sempre buscou agir de forma impessoal, sempre pronto para modificar seus conceitos e suas hipóteses quando essas se mostravam erradas. Assim, pela observação sistemática e cuidadosa, feita em colaboração com incontáveis grupos e pessoas, foi possível estabelecer vários princípios doutrinários, que não são a verdade absoluta, mas que a razão indicam como os mais racionais e prováveis possíveis.
As entidades da Umbanda
Por detrás das nomenclaturas de raízes africanas, que muitos ainda estranham e estigmatizam, estão os Espíritos que se comunicam na religião da Umbanda. Abaixo de Olorum, os orixás da tradição iorubá são venerados como entidades superiores, e eles variam de acordo com cada ramificação da religião. Estes incluem Oxalá, Oxum, Oxóssi, Xangô, Ogum, Obaluaiê, Yemanjá, Oyá, Oxumaré, Obá, Egunitá, Yansã, Nanã e Omolu. Abaixo dos orixás, as entidades espirituais são agrupadas em linhas e falanges, abrangendo diversas categorias, como os Caboclos, que são os espíritos indígenas; os Pretos Velhos, que representam os espíritos dos antigos escravos brasileiros; os Exus, que são espíritos benevolentes e mensageiros dos orixás; as Pombas Giras, identificadas como damas da noite ou feiticeiras; e os Erês, que são espíritos infantis.
Como podemos ver, são apenas nomenclaturas, e nada mais que isso. Com Kardec se comunicavam ou eram evocados Paxás, Zuavos (que eram soldados africanos), supostos feiticeiros, etc. Quando mais esclarecidos, apresentavam-se desapegados das personalidades anteriores; quando menos, diziam se apresentar tal como eram ou como deles lembravam ou imaginavam.
É claro que não posso deixar de lembrar que a evocação com finalidade de curiosidade vazia ou brincadeira será retribuída pela presença de Espíritos de igual pensamento. As evocações sérias eram realizadas com a finalidade de desenvolver a Doutrina.
É a partir daqui que faremos a aproximação com o Espiritismo em sua realidade, sem imposições, já que, tratando-se a Umbanda de uma religião, é necessário reconhecer a liberdade de cada um acreditar naquilo que quiser, e como quiser.
A redescoberta do Espiritismo verdadeiro
O que pretendo demonstrar, enfim, é que a mediunidade praticada na Umbanda não difere da mediunidade praticada pelos espíritas, ou pelos católicos, pelos budistas, por qualquer religião, enfim, ou ainda por livres-pensadores, senão por um detalhe: crenças. E aqui, preciso ser enfático em repetir que o Espiritismo, estando, do ponto de vista espiritual, na própria Natureza, caracteriza-se assim por uma ciência natural, de forma que, para bem compreendê-lo, é necessário dedicação científica. Notem que aqui estou desvinculando o Espiritismo do Movimento Espírita: são duas coisas diferentes.
Pois bem: o mérito de Kardec e de todos aqueles que seriamente estudaram o Espiritismo em seus primeiros passos, foi o de analisar com metodologia e rigor científico os resultados das comunicações mediúnicas e dos fenômenos diversos, obtendo, como mencionei, uma teoria composta de diversos princípios doutrinários, exaustivamente verificados. Kardec, por exemplo, várias vezes questiona como o Espírito chegou ali tão rápido, não se satisfazendo com a primeira resposta. Foi possível, assim, compreender quem são os Espíritos; como se encontram após deixar o corpo material, pela morte deste, etc., o que deu origem posterior às demais obras de Kardec, incluindo “O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores”, um verdadeiro tratado prático sobre a ciência da comunicação com os Espíritos. Com isso, foi possível aos médiuns e aos estudiosos da época, que eram naturalmente provenientes de diversas religiões, fora os livres-pensadores, superarem diversos erros e se tornarem cada vez mais úteis na propagação de um conhecimento que a cada dia mais convertia ao bem e à fé raciocinada criminosos, depressivos em ponto de desespero, descrentes, etc.
Se você está me acompanhando, deve entender o que estou dizendo. É como afirmar: havendo os estudos sobre a física, que explica princípios como os da inércia, seria insensato praticar base jumping sem calcular a inércia que poderá fazer com que o indivíduo se arrebente ao chão, tomando os cuidados necessários para que isso não aconteça. Quando falamos em mediunidade, dizemos o mesmo.
Um exemplo de erros dos espíritas modernos é aquele dado no início, quando quiseram proibir a comunicação de um Espírito que tenha se apresentado sob tal nomenclatura. Outro: já foi demonstrado que não podemos acreditar cegamente no que dizem os Espíritos, pois eles não ganham a sabedoria por deixar o corpo físico, sendo necessário sempre raciocinar sobre o que dizem e, havendo qualquer margem para dúvida, é necessário investigar mais a fundo, inclusive pelas evocações, se necessário, caso a Doutrina já não forneça respostas suficientes para o assunto em questão.
Mais um exemplo: já foi demonstrado que não é possível dominar os Espíritos por meio de rituais, fórmulas ou objetos, e que os Espíritos maldosos frequentemente enrijecem ainda mais seus ataques quando se tenta fazê-lo. Isso é fruto desse estudo metodológico sobre incontáveis Espíritos. Kardec, aliás, tenta fazer um mau Espírito ir embora pela força das palavras e do nome de Deus, durante uma evocação, sem sucesso. Ainda assim, existem aqueles que escolham deliberadamente fazerem-se de surdos para esses fatos e que, não raro, terminam ampliando seus desgostos ou, às vezes, fazem descrentes, que não encontram solução para as suas perturbações, a despeito de todas as fórmulas, sinais, objetos e rituais utilizados.
Conclusão
É claro que Kardec não encerrou o Espiritismo. Muito pelo contrário: como cientista, sempre asseverou a necessidade de continuar os estudos. Contudo, para essa continuidade, são necessários todos os aspectos anteriormente destacados. Não basta ouvir opiniões isoladas dos Espíritos e tomá-las como verdade, e quem luta contra isso, no fundo, quer apenas sustentar suas próprias opiniões, vaidosamente cultivadas.
A reflexão, para terminar, é esta: nem os espíritas, nem os dissidentes, nem as demais pessoas, religiosas ou não, conhecem de fato o seja o Espiritismo atualmente, embora todos tenham condições de praticar a mediunidade. Por isso, sofrem de diversos enganos e efeitos maléficos, sendo o principal deles a obsessão e até a possessão, além da divulgação das falsas ideias que atrasam o desenvolvimento da humanidade. Muitas vezes, esses maus resultados são encontrados por pessoas de boa-fé, às quais bastaria o conhecimento. Outras vezes, são pessoas renitentes, que definitivamente não querem se abrir à possibilidade de admitir que estão erradas ou que não sabem de tudo – mas este artigo não é para elas.
Vamos, portanto, como na época de Kardec, auxiliar na recuperação desse conhecimento. Vamos aprender o que realmente é o Espiritismo, através do estudo da Revista Espírita de 1858 a 1869; vamos praticar uma mediunidade sadia, livre das falsas ideias diversas; vamos retomar, depois, as evocações, e então cooperar entre os grupos, como Kardec apresenta na Revista Espírita, não com a mediunidade restrita aos “centros espíritas”, como conhecemos hoje, mas sim com ela espalhada por pequenos grupos e grupos familiares, cada um deles um “centro”. Não importa a religião de cada um, à qual cada um tem direito: Espiritismo é fato natural, sendo acessível a todos.
Por muito tempo, o Movimento Espírita e a Umbanda foram guiados pelo misticismo, embora tenham , a seu dispor, um cabedal de conhecimentos tão ricos e sérios. Seja você participante do Movimento Espírita, ou de outra religião, ou, ainda, um livre-pensador que pretende conhecer os fatos, junte-se a esse esforço de recuperação. Esse é o convite.
Sugiro, como uma ótima leitura, a obra “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”, de Paulo Henrique de Figueiredo.